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CARTA PASTORAL AO POVO DE DEUS
NA DIOCEDE MERIDIONAL NO ANO DE 2010, A.D.

Que a graça, o amor e a paz de Deus e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco!
Queridos irmãos e irmãs! Há alguns anos atrás as reações críticas feitas ao filme de Mel Gibson “A Paixão de Cristo” concentraram-se, em geral na referência ao “excesso de sangue” ou ao “banho de sangue” perante uma narrativa que parece procurar somente o lado sangrento da paixão de Jesus de Nazaré.  Um filme sempre é um filme, isto é, uma representação, que depende do olhar do Diretor, da sua sensibilidade, da sua capacidade de apreender o espírito do fato ou da história que narra  e também do olhar do espectador, que vê e o aprende conforme a sua informação e capacidade de leitura. Esta paixão é somente mais uma versão da “verdadeira” paixão de Jesus, que aconteceu uma só vez. Um sacrifício perfeito, completo e suficiente pelo pecado de todo o mundo, conforme no diz a sagrada liturgia. Mas que continuamente se refaz na morte, violência e feridas de inocentes, pela explosão da violência que vai por este mundo que, todos os dias, os noticiários nos mostram.  Na verdade, o nosso mundo está sob uma “paixão” global que nos desafia a uma vigilância superior e a uma relação pessoal com a fé.
A Paixão de Jesus, que o Evangelho nos apresenta, mostra, sobretudo, a resposta do Deus feito homem à violência dos seres humanos: vulnerabilidade e perdão. Naquela extrema fraqueza e humilhação humanas vai chegar ao Calvário, em conseqüência das violências das pessoas suas irmãs. E do alto da cruz, na sua dor e solidão, o Senhor proclama: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”. A dor expressa em amor e perdão, oferta preciosa aos seres humanos confusos e arrogantes nos seu orgulho e auto-suficiência.
Embora centrados na figura do Cristo sofredor, não podemos deixar de ver na crueldade do espetáculo a possibilidade humana de gerar a violência. Como bem disse o nosso Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams: “olhar a cruz de longe é aprender que dor e violência é algo que somos capazes de fazer”. Assim, no Calvário, na brutalidade dos algozes e na abundância de sangue podemos ver-nos participantes da lógica da violência, na multidão cruel e ululante, gritando: “Crucifica-o”. E isso nos faz perceber que a violência não é só problema dos outros, tanto na sua realização como nas suas conseqüências.  A violência em si nada resolve, pois estigmatiza os problemas distorcendo a realidade complexa e uniformiza as atitudes de resposta sem nexo e medida.  É o que se vai compreendendo da escalada do desconcerto por todo o nosso mundo. As conseqüências são o recrudescimento do terrorismo e das matanças indiscriminadas, particularmente de inocentes.
Mas a paixão de Cristo só ganha sentido na medida em que é olhada à luz da sua Ressurreição. O dom da ressurreição é a energia vivificante da nova criação de Deus, o poder transformador que nos preenche de energia vivificadora de Cristo.  Por isso a missão da Igreja tem de ser uma missão de Páscoa, de esperança.  Isto é, perante a violência da paixão de Cristo, que o mundo encarna na violência em que estamos vivendo, a Igreja tem de ser fiel ao evangelho, anunciando o amor vitorioso e transformador de Deus em Cristo ressuscitado. E isto nos enche de esperança.
Por isso nesse Concilio, somos chamados a fortalecer a Igreja para realizar a missão de Deus no mundo. Chamados a acolher no serviço e a semear na esperança. A refletir sobre nossa responsabilidade pela missão e crescimento da Igreja e sua presença transformadora na realidade em que vivemos. A nossa responsabilidade cristã é a capacidade e o dever que temos de assumir o cuidado com o mundo e com as variadas formas de vida como resposta a Deus, que nos confia seus dons e bens.
A centralidade da missão para a existência da Igreja e sua ação no mundo nunca podem deixar ser enfatizadas demais. De todas as tradições da Igreja Cristã vem a mensagem clara de que a Igreja é missionária em sua essência. Ela existe para dar testemunho das boas novas do Reino. Ela é parte da própria natureza da Igreja.
Por isso desejamos que este Concílio seja um momento de renovação do Povo de Deus no compromisso com o Senhor e o seu Reino e possa ajudá-los a viver no poder do Espírito Santo em sua vida, testemunho e ação cristã;  possibilite animá-los a renovar a adoração em nossas paróquias e renovar o Corpo de Cristo em nossas comunidades, de modo que sua adoração e ministério sejam expressão da evangelização e da missão.
Nossas paróquias devem os verdadeiros centros da missão. O nosso papel nestes dias é o de encorajar e facilitar a iniciativa missionária local. A igreja local não “está na base”, ela é a “base”, e precisa ser entendida como tal. Como um passo necessário em direção à renovação da missão.
A evangelização é parte da vida diocesana e paroquial. E parte do testemunho total da Igreja – sua missão. A dimensão missionária é parte essencial da vida da Igreja, é sua razão de ser.
Nesta ação o clero é chave para equipar as suas paróquias para a evangelização.  Em muitos momentos se nota um desânimo diante da realidade. Por isso novos modelos de liderança e de ministério precisam ser buscados para iniciar uma mudança para uma ênfase missionária dinâmica que vá além do cuidado e da educação para a proclamação e serviço. Há uma necessidade de que as lideranças paroquiais e diocesanas trabalhem na renovação de nossas comunidades na direção da missão. A época do “ministério profissional” acabou. Chegou a hora do “ministro missionário”. Clero e laicato, juntos devem refletir e buscar maneiras mais efetivas de nos liberar da escravidão de modelos inapropriados de missão e ministérios. De buscarmos uma nova visão de nossos ministérios e da nossa missão no contexto local.
A Evangelização efetiva somente poderá acontecer na medida em que a Igreja é renovada e reconstruída a partir de nossas paróquias, como uma comunidade em invés de uma “instituição”. A Igreja perde o seu interesse pela missão quando ela negligencia o tema do Reino de Deus em sua vida e em seu ensino. A redescoberta do Reino de Deus como Boas Novas que anunciamos é a chave para a renovação da missão e assim, também para a evangelização. Que contempla a nossa mensagem também da salvação pessoal, serviço de compaixão e transformação social da totalidade da missão, como o próprio Cristo fez.
A desorientação, angústia, dor e morte trazidos pela violência na qual todos nós somos envolvidos nestes últimos tempos em todas as nossas regiões, não é somente uma ameaça à construção de uma nova sociedade.  Também é um desafio à Igreja como anunciadora do Deus da paz. É fundamentalmente um assunto missionário. Questiona a nossa mensagem de “Boas Novas”, a não ser que encontremos modos de proclamar o Reino de Deus de modo que, por meio do nosso compromisso com a paz e a justiça, as pessoas possam ter a experiência das Boas Novas de modo concreto em suas vidas.
Quando realmente vivemos, promovemos e proclamamos a paz, a justiça e a reconciliação, seremos testemunhas do Cristo Ressuscitado. Estaremos anunciando o Cristo Ressurreto, como razão da nossa fé e da nossa esperança. E os nossos próprios atos se transformarão na ação mesma da Ressurreição. O mundo está faminto de ver e sentir o Cristo Ressuscitado. Assim como o Pai enviou Jesus ao mundo, assim Jesus nos envia a nós, pelo poder do Espírito Santo.
Queridos irmãos e irmãs, nesta reunião conciliar estamos sendo chamados a acolher no serviço e semear na esperança. E isto significa que somos chamados a desencadear em nossas comunidades uma expansão da nossa presença missionária, em fidelidade ao chamado apostólico para uma missão voltada para onde a nossa sociedade vive a violência, a injustiça, o medo, a exclusão e a dor.  Fazer missão não significa fazer “prosélitos”. O proselitismo é apenas uma forma de fazer as pessoas sentarem nos bancos das igrejas. Muitas vivem “trancadas” dentro de seus templos como um seleto “clube”.  Cristo nos envia a palmilharmos os caminhos de nosso mundo como um sinal de sua presença redentora. Cristo nos chama para mudarmos a vida, pois o Reino de Deus está chegando. Nossa missão é um consagrar-se à vontade de Deus.
Jesus Cristo, encarnação plena de Deus em nosso mundo, é o princípio e o fim de nossa ação na sociedade, princípio e modelo da missão ( Jo 20.21-22).  É em nome do Filho Ressurreto e na força do Espírito Santo que somos enviados ( Jo 17.16-22). Foi necessário que o próprio Deus se fizesse “carne”, “gente” como nós, e assim viver uma vida de perfeito serviço e entrega. O nosso papel como igreja evangelizadora é ser uma Igreja servidora. Chamados a acolher no serviço.  Ir ao encontro das pessoas nos diversos níveis, lugares e circunstâncias. O servir é a própria identidade da Igreja. Ele não é um apêndice do Evangelho de Cristo, mas o coração do mesmo. Se a missão é entendida como serviço aos outros e não uma conquista e dominação, deve acolher o diferente com admiração e respeito, pois nele o Deus de Jesus se faz presente.
Acolher no serviço e semear na esperança!
Irmãos e Irmãs: O Senhor Ressuscitou!. Saiamos do fechamento de nossos desertos de solidão, medo e acomodação.   Que as nossas vidas e as de nossas comunidades se convertam em sinais de alegria e esperança, vivida no serviço. Que tenhamos a coragem e a ousadia de anunciar a Cristo ressuscitado, que é razão de nossa fé e de nossa esperança e impulsionador do nosso serviço.
Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Novo Hamburgo, Maio de 2010. AD.

+ D. Orlando Santos de Oliveira – Bispo Diocesano

 

 

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